Hiperatividade confunde pai, professor e médico- FOLHA DE S.PAULO

Publicado em 19/07/2017 por

A hiperatividade faz o paulistano Giovanni Leonardi Cabral, 2 anos e 10 meses, trocar de brinquedos a cada cinco minutos



DANIELA FALCÃO - EDITORA-ASSISTENTE DO EQUILÍBRIO


Quem observa o paulistano Giovanni Leonardi Cabral sentado em meio à pilha de brinquedos no apartamento em que mora com a mãe não vê nada de diferente. Como muitos garotos de 2 anos, ele é agitado, não pára quieto e troca de brinquedos num piscar de olhos. Mas, como 4% das crianças brasileiras, Giovanni é portador do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (o TDAH), distúrbio neuroquímico que confunde professores, pais, psicólogos e até médicos.
Além de não conseguir fixar a atenção em uma atividade por mais do que alguns minutos, os hiperativos sobem em móveis, deixam cair copos, falam compulsivamente, vivem perdendo material escolar e não suportam bem frustrações. "Com 1 ano, meu filho já escalava árvores com uma destreza incrível. Quando ele estava sendo alfabetizado, ficou impulsivo e brigava muito", conta a publicitária M.E.F., mãe de um garoto hiperativo de 13 anos que prefere não se identificar para preservar o filho (leia depoimento ao lado).
Mas nem toda criança que tem "fogo no rabo" deve ser rotulada de hiperativa. A agitação pode ser resultado de problemas comportamentais. "Crianças reagem com agitação e impulsividade à sensação de inadequação na escola ou a mudanças repentinas de vida, como divórcio e crise financeira na família", explica Mauro Muszkat, neuropediatra da Unifesp.
Ou ainda a agitação exacerbada pode ser manifestação de outras doenças graves, cujos sintomas são semelhantes aos da hiperatividade, como autismo, hipertireoidismo e até depressão infantil.
O diagnóstico correto só é conseguido após criterioso exame clínico, já que não existe exame laboratorial que comprove a hiperatividade. E a consequência disso é desastrosa: frequentes erros de diagnóstico.
"A maioria dos nossos alunos são falsos hiperativos. Crianças que não se adaptam ao esquema rígido das escolas tradicionais e, por isso, se comportam como hiperativos, mesmo sem ter disfunção bioquímica. Costumo dizer que eles são hiperativos construídos pela história", conta a psicóloga Nívea Maria Fabrício, diretora psicopedagógica do Colégio Graphein, única escola especializada no ensino de crianças hiperativas e com transtornos de aprendizagem de São Paulo.

Para o psiquiatra infantil Ênio Roberto de Carvalho, coordenador do Ambulatório de Hiperatividade do Hospital das Clínicas, há um boom fabricado de casos. "A hiperatividade virou modismo. Qualquer sinal de conduta fora do normal, hoje, é rotulado como hiperatividade porque a doença está na ponta da língua de todo mundo."

Desde que o ambulatório foi criado, em janeiro de 99, dois novos casos são diagnosticados a cada semana, a maioria em meninos. "Mas o número de garotos que nos procuram e que não são hiperativos de verdade é muito maior", diz Carvalho.
Como o limite que separa a criança irrequieta e criativa da hiperativa é sutil, é preciso muito cuidado na hora de diagnosticar o transtorno. "Se o profissional fizer uma análise apressada, vai rotular toda criança de hiperativa", adverte Mauro Muszkat.

O fato de as escolas estarem alfabetizando cada vez mais cedo é apontado pelos especialistas como um dos responsáveis pelo aumento de diagnósticos equivocados. "Muita criança não está preparada para ser alfabetizada aos 5 anos. Ela tem dificuldade de ficar sentada e de se concentrar em uma atividade por mais de meia hora. Ao ser obrigada a isso, reage com hiperatividade", afirma Muszkat.

A falta de flexibilidade de algumas escolas em lidar com alunos irrequietos, mas sem disfunção bioquímica, também cria falsos hiperativos. "Talvez haja diagnósticos em excesso porque o sistema de ensino não se adapta aos alunos diferentes. Para a escola, é mais fácil tachar a criança irrequieta de hiperativa do que admitir que sua metodologia não está servindo àquele aluno", diz Carvalho.

A competição e a pressão por bom desempenho desde as primeiras séries também inflacionam os diagnósticos de hiperatividade. "Nem toda criança se adapta ao esquema competitivo das escolas, ela fica incomodada, se sente fora do padrão. Há escola que coloca as notas dos alunos até na Internet. A hiperatividade termina sendo uma reação saudável, um jeito de a criança dizer que não quer continuar ali", afirma o psiquiatra Ênio Carvalho.

Angustiados com o mau desempenho do filho, os pais encontram na hiperatividade a justificativa para o insucesso escolar. "Já fui pressionado por um casal a medicar o filho porque ele não tinha o desempenho escolar que os pais esperavam. Quando disse que a criança não era hiperativa e que, por isso, não poderia medicá-la, o casal não voltou mais ao consultório", conta Carvalho.
A falta de espaço em grandes centros urbanos também contribui para a confusão. "Há mais barreiras físicas hoje do que há 30 anos, e a criança que não consegue ficar quieta se torna mais visível", completa Carvalho.

Para evitar erros de diagnóstico, além de constatar se a criança apresenta os sintomas da TDAH por pelo menos seis meses, o médico deve avaliar se os sintomas apareceram antes dos 7 anos e se persistem em vários ambientes -em casa e na escola, por exemplo.
"Uma criança que até os 8 era tranquila não vira hiperativa aos 9. Mas pode estar reagindo com hiperatividade a uma situação que a esteja incomodando", diz Muszkat.

As crianças de fato hiperativas dão os primeiros sinais antes de completar 1 ano. A promotora de eventos Angélica Malateaux, 25, percebeu algo de errado com Giovanni quando o bebê completou 5 meses. "Além de muito agitado, não respondia a pedidos de tchau e beijinhos. A pediatra disse que não havia problema, que os pais é que querem bebês supergênios." Com 1 ano, os sintomas estranhos se acentuaram, com problemas de fala, e a pediatra encaminhou o garoto a um neurologista.

"Ele fez tomografia, exame de sangue, foi a otorrino, mas todos os exames deram negativo. Desconfiaram de autismo, mas a hipótese também foi descartada. Só depois disso tudo confirmaram a hiperatividade", conta a mãe.
O diagnóstico precoce e correto de Giovanni poupou a família de muito sofrimento. Ele está sendo acompanhado por neuropsicólogo, neuropediatra, faz fonoaudiologia e natação. A mesma sorte não teve o mineiro Murilo (nome fictício), 17. A doença foi diagnosticada quando ele estava na 1ª série, mas o garoto cresceu sem tratamento adequado.
"Nunca fomos informados de que os sintomas da hiperatividade podiam ser controlados com remédio", conta o pai, o engenheiro Ubiratan R. Sem apoio psiquiátrico e medicamento, Murilo virou o garoto-problema da cidade. Foi expulso de cinco escolas e hoje tem envolvimento com drogas e pratica vandalismo. "Ele não aceita não como resposta, quebra as coisas da mãe e já destruiu até a porta do banheiro. Quando sai, morro de medo que se envolva em briga, mas, quando está em casa, ele inferniza a vida de todo mundo", diz Ubiratan.
Mesmo os pais que recebem aconselhamento psicoterápico têm dificuldade de entender a desobediência. "A criança não consegue seguir uma instrução até o fim por ser incapaz de fixar a ordem. Para colocar limites, é preciso repetir a instrução 20 vezes", diz Muszkat.
Os irmãos do hiperativo também sofrem. "Meu filho mais novo vivia se atracando com Paulo (nome fictício) porque ele quebrava todos os brinquedos. Mas melhorou com a terapia, hoje até ri quando o irmão aparece com a roupa virada pelo avesso", afirma a publicitária M.E.F.
O acompanhamento psicoterápico é importante para a família. "A gente percebe que está conseguindo ajudar o filho, é muito prazeroso. Agora sei que, para o Paulo estudar, preciso deixá-lo espalhar os livros pelo chão e escrever deitado. Não dá para exigir que ele fique sentado na cadeira", conta M.E.F.
Nos EUA, as famílias de hiperativos montaram grupos de apoio em vários Estados. "Nunca tive contato com pais de hiperativos. Acho que, se tivesse alguém para desabafar, saberia como lidar melhor com o meu filho", diz Ubiratan.

ONDE TRATAR

Em SP: Ambulatório de Hiperatividade do HC: para marcar consultas, telefone para 0/xx/11/3069-6277 ou 0/xx/11/3069-6094.
No Rio: Grupo de Estudos do Déficit de Atenção da UFRJ: informações no tel. 0/xx/21/295-3449, ramal 246.



Texto retirado do site: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq1502200101.htm

 
 

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