Os desenhos são formas de conhecer as crianças em suas condições sociais, culturais e históricas?

Publicado em 05/03/2018 por

?Aprendi que épossível conhecer meninas e meninos, desde bem pequenos, a partir dos e com osseus desenhos?. A constatação é da professora da Universidade de São Paulo (USP),Marcia Gobbi, ao relembrar como se deu sua aproximação com o universo dosdesenhos infantis, um de seus principais temas de pesquisa. 


O início dessetrajeto remete ao tempo em que ela era professora de educação infantil nacidade de São Paulo, atuação que a aproximou das crianças e de suas criações.No entanto, a percepção apurada sobre os desenhos infantis implicou em umexercício de sociologia de ?estranhar o que é familiar?, como explica.?O fato dos desenhos estarem presentes não significa que os vejamos, quetenhamos olhares mais aguçados e preocupados com eles. Naturalizamos suapresença entre nós e isso é algo perverso, uma vez que, com isso, deixamos deefetivamente olhar para o que comunicam?, avalia.O estranhamento,segundo ela, é condição para que se possa imaginar, problematizar o que constituio cotidiano e é aparentemente natural. ?Com isso, os traços e linhas infantisganham importância e se torna possível vaguear pelas retas e curvas, passeandopor elas e aprendendo com elas?, o que julga fundamental. ?Quando olhamosatentamente para essas produções  começamos a compreendê-las em suaspráticas e lógicas infantis e perceber que há diferenças a partir dos contextose condições de criação, sendo possível observar diferenças e marcas de classessociais, gênero, étnico raciais, entre outras?.

Em entrevistaao Centro de Referências em EducaçãoIntegral, a professora fala mais sobre opapel dos desenhos no desenvolvimentointegral de crianças e reforça que compreender essas produçõesdiz de um movimento de sair do ?confortável lugar adultocentrado e serelacionar a partir de perspectivas horizontais de relações humanas?. Confira! 

Centro deReferências em Educação Integral: Oque os desenhos representam para as crianças? 

Marcia Gobbi: Várias são as pesquisas que se ocupam deconhecer os desenhos em distintas abordagens. Eu diria que para sabermos o queos desenhos representam para as crianças é necessário perguntar para elas. Não,não estou sendo indelicada!! Porém, nos esquecemos de perguntar e observar ascrianças enquanto desenham. Somos acostumados a recolher os desenhos econsiderá-los apenas em seu produto final, deixando o processo de lado. Comisso, a riqueza das escolhas e conquistas das crianças enquanto desenham sãopouco vistas ou consideradas em sua plenitude.Ainda assim, éimportante que os desenhos sejam vistos e discutidos entre as crianças e porelas, por que não? Desse modo podemos começar a saber o que os desenhosrepresentam para as meninas e meninos. Será que é a mesma coisa? As meninasdesenham e valorizam os desenhos do mesmo modo que os meninos? Há condiçõessociais que ora consideram mais a uns que a outros?Várias pesquisastêm nos mostrado a importância dos desenhos para as crianças como forma deorientar seu pensamento sobre o papel. O desenho pode ser visto como umapesquisa pessoal das crianças desde pequenas e, como tal, representamconquistas, ensaios em que mundos são imaginados e criados sobre diferentessuportes e não apenas o papel. Sabe-se que são vários os locais sobre os quaisdesenham e as paredes, chão, areia, terra, azulejos não escapam disso e essesdiferentes suportes materializam de maneiras diversas aquilo que cada criançapesquisa, experimenta, inventa e cria. 

CR: E o que eles dizem sobre as crianças? 

Marcia: O que os desenhos dizem sobre as crianças? Muito.Como já mencionei anteriormente são formas de conhecê-las de modo profundo emsuas condições sociais, culturais, históricas. Os desenhos criados pelascrianças em 1930, no Brasil, são iguais àqueles elaborados hoje em dia, nomesmo país? Há um processo de transformações históricas, sociais, culturais eeconômicas que criam diferentes contextos de criação.As crianças, comoatores sociais que são, sujeitos e ativas nesse processo, apresentam suasmarcas ao longo da criação e não somente no resultado final. Em meudoutoramento, tomando a liberdade de trazê-lo como exemplo, em que estudei osdesenhos das crianças dentro do acervo de desenhos do poeta Mário de Andrade,  que está no Instituto de Estudos Brasileiros daUSP, e é composto por mais de dois mil desenhos guardados desde 1926até 1945, podemos observar essas transformações das quais falei.Quando consideradosna relação com os dias atuais podemos ver desde o desaparecimento das margens ?frutos de modelos escolares e suas imposições ? até mesmo temáticas próprias deum período, bem como, as conhecidas casinhas portuguesas que hoje já não têmtanto peso nos desenhos feitos pelas crianças.   

CR: Como situá-los de acordo com odesenvolvimento da criança?Marcia:  Eles mudam de acordo com a cultura,com o período, com a presença ou ausência de alimentos à imaginação e aosprocessos de criação. Ao acreditar que os desenhos são produtos de cultura e decultura infantil não posso deixar de observá-los dentro de contextos diversos:são artefatos de cultura.Ou seja, não sofremmudanças apenas a partir de fases, mas de condições de produção. São osregistros gráficos e visuais que resultam de escutas e  que, ao invadir asparedes, podem impregnar espaços, personalizá-los e deixar como herança asmarcas históricas de cada um, evidenciam trajetórias de sonhos, desejos,experiências partilhadas com o coletivo infantil, com os adultos ouindividualmente. Com isso, não há fases, mas histórias de crianças. Temos queolhar, guardar, considerá-las em sua ?inteireza?. 

CR: Como essas reflexões se espelham na prática? 

Márcia: Como professora, busco instigar alunos ealunas a olhar os desenhos das crianças e elas próprias enquanto desenham. Aúltima experiência gratificante que tive nesse sentido, e bastanteparticular, refere-se à uma pesquisa financiada pelo Conselho Nacional de DesenvolvimentoCientífico e Tecnológico (CNPQ) chamada Olhar sobre a cidade: fotografia e desenho na construçãode imagens sobre  São Paulo a partir de crianças das escolas municipais deeducação infantil, em que buscava-se compreender acidade ou as diferentes cidades existentes em São Paulo a partir das criançasfrequentadoras de Escolas Municipais de Educação Infantil paulistanas.Em andanças pordistintos bairros, procurou-se esse conhecimento e reconhecimento a partir dosdesenhos e de fotografias feitos pelas crianças em metodologia de pesquisaprópria aos estudos com crianças. Ainda estou com material riquíssimo ebelíssimo a ser vasculhado e analisado, colocando à lume os estudos sobreinfância e desenhos e suas representações sobre as cidades que, como venhoobservando, são recriadas pela meninada. A cidade da violência, do namoro, dosgrafites, das práticas políticas em período eleitoral, enfim? as tantas cidadesde São Paulo, existentes em São Paulo e que ora nos surpreendem, ora reiterampreocupações e espaços e pedaços já conhecidos e apresentados pelas crianças.PesquisaEmartigo, a pesquisadora esclarece os fundamentos para a pesquisa Olhar sobre a cidade: meninos e meninas pequenas e seus modos defotografar e desenhar São Paulo

CR: E como pensar o incentivo e esse olhar paraos desenhos da criança na perspectiva de que se desenvolvam integralmente? 

Marcia: Acredito que todas as manifestaçõesexpressivas dos seres humanos exercem papel fundamental em seu desenvolvimento.Os desenhos servem para as crianças conhecerem outras e tantas possibilidadesde expressão que envolvem o corpo que desenha, o desenho, a fotografia, oteatro, o cinema como dimensões que nos são furtadas vagarosamente e as quaissão pensadas como pertinentes a apenas um grupo social.A defesa é que taislinguagens artísticas encontrem-se presentes no cotidiano das crianças comodireito delas e não como premiação, como recheio entre disciplinas escolaresconsideradas mais importantes. Considero que as crianças possuem uma formapoética de ver e inventar mundos que permitem transferir da e para a própriavida aquilo que, muitas vezes, é apresentado na literatura, no teatro, nodesenho, na dança, nos modos como produz suas esculturas, suas músicas e sons.A arte e suasmanifestações artísticas e expressivas permitem certa transformação de simesmo, ao mesmo tempo em que transformam ao Outro e às culturas em que estão eestamos imersos. Nesse sentido, quando acreditamos nisso e provocamos espaçosque garantam a existência dessas manifestações é possível promover esse chamadodesenvolvimento integral que é o desenvolvimento de todos nós e paranós. Temos então, artefatos culturais, linguagens infantis que, de modoindissociável, revelam infâncias e as marcam em nós. 

CR: Como avalia a criação desses espaços pelasescolas? 

Marcia: Há um grande desafio, digo um para sergenerosa, mas temos grandes desafios: vivemos em espaços da padronização quenem sempre reconhecem as manifestações artísticas  e expressivas comodireito de todos: adultos e crianças. 

Dicas:

Em entrevista, apesquisadora elencou perguntas que toda escola deve fazer sobre o espaço decriação das crianças: 
 
Como podemostrabalhar para garantir as criações de meninos e meninas?Como podemos noscontrapor aos espaços cerceadores das capacidades criativas das crianças? 

Como incentivar ascrianças a explorar os ambientes e expressarem-se com palavras, gestos, danças,desenhos, teatro, música, sem recriminar os choros e o aparente excesso demovimentos? 
 
O ?ensino? e seucaráter escolarizante pode, por vezes, cercear a imaginação, a fantasia eexcluir as falas das crianças e sua autoria nos processos de criação? 

Com isso, prevalececerta tendência de promover algumas linguagens em detrimento de outras, que,vagarosamente vão sendo apagadas em nós e dos espaços escolares.O espaço pode serconstruído e observado coletivamente incluindo crianças e adultos em diferentessegmentos. Criamos cenários em que as crianças vão atuar e nos esquecemos queos mesmos podem e devem ser elaborados pelas crianças. 

Diria, retomando o quefoi afirmado inicialmente que, para isso acontecer, é importanteestranhar  os espaços familiares em diálogos com outros espaços, ambientese culturas das e nas escolas de educação infantil e ensino fundamental.Esses espaços nãopodem ser apartados; é preciso que possam surgir com estupor das descobertas emdistintos ambientes, elaborados não somente para as crianças, mas também com as crianças. 

Desse modo, os desenhos ganham outra proporção,agigantam-se tomando outros espaços, criando ambientes, fazendo-se presentes deforma permanente e vistos no cotidiano das escolas e comunidades.




 
 

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